Atualizado em abril de 2026

GLP-1 e Tiróide:
Riscos e Contraindicações

Carcinoma medular em ratos, risco real em humanos, contraindicações MEN2, vigilância tiroideia e posição oficial da EMA e INFARMED.

Porque se fala de tiróide quando se fala de GLP-1

Uma das preocupações mais recorrentes entre os doentes que iniciam tratamento com agonistas GLP-1 — como o Ozempic, o Wegovy ou o Mounjaro — prende-se com o potencial risco de tumores da tiróide. Esta preocupação tem origem nos estudos pré-clínicos (realizados em animais) que identificaram um aumento da incidência de tumores das células C da tiróide em roedores expostos a agonistas GLP-1.

Neste artigo, analisamos a fundo esta questão, distinguindo entre os dados em animais e as evidências em humanos, explicando as contraindicações formais e a posição das autoridades reguladoras europeias e portuguesas.

Os estudos em roedores: o que foi observado

Durante o desenvolvimento clínico de todos os agonistas GLP-1 atualmente disponíveis, os estudos de toxicologia a longo prazo realizados em ratos e ratinhos revelaram um achado consistente: o desenvolvimento de hiperplasia das células C da tiróide (crescimento anormal destas células) e, em doses elevadas e durante exposições prolongadas, de carcinoma medular da tiróide.

Dados específicos por fármaco

Fármaco Achado em roedores Dose relativa vs. humana
Liraglutida (Victoza/Saxenda) Tumores células C em ratos 8x a dose humana máxima
Semaglutida (Ozempic/Wegovy) Tumores células C em ratos 2-10x a dose humana
Dulaglutida (Trulicity) Tumores células C em ratos Doses supraterapêuticas
Tirzepatida (Mounjaro) Tumores células C em ratos Doses supraterapêuticas

Estes achados foram suficientemente importantes para que todas as agências reguladoras — incluindo a EMA e a FDA — exigissem a inclusão de avisos nos resumos das características do medicamento e estabelecessem contraindicações formais para grupos de risco.

Porque é que os dados em ratos podem não se aplicar a humanos

A extrapolação dos achados em roedores para humanos deve ser feita com extrema cautela, por diversas razões biológicas fundamentais:

1. Diferença na expressão de recetores GLP-1 nas células C

As células C da tiróide dos roedores expressam uma densidade muito elevada de recetores GLP-1 na sua superfície. Em contraste, as células C humanas expressam níveis muito baixos — ou mesmo indetectáveis — destes recetores. Estudos de imunohistoquímica em tecido tiroideu humano demonstraram consistentemente uma expressão mínima ou ausente do recetor GLP-1 nas células C, o que torna improvável que os agonistas GLP-1 estimulem diretamente estas células em humanos.

2. Diferença no volume relativo de células C

Nos ratos, as células C representam uma proporção significativamente maior do volume total da tiróide em comparação com os humanos. Isto torna a tiróide dos roedores intrinsecamente mais suscetível a estímulos proliferativos sobre as células C.

3. Dosagens e duração de exposição

Os tumores em roedores foram observados com doses frequentemente muito superiores às utilizadas em humanos e durante períodos equivalentes à totalidade da vida do animal. A transposição direta destes achados para a prática clínica humana é considerada inapropriada pela comunidade científica.

Consenso científico: As principais sociedades de endocrinologia e as autoridades reguladoras consideram que os dados em roedores refletem uma suscetibilidade específica da espécie e não constituem evidência de risco equivalente em humanos. Esta posição é partilhada pela EMA, pela ADA (American Diabetes Association) e pela EASD (European Association for the Study of Diabetes).

Evidências em humanos: o que dizem os dados

Com mais de 15 anos de utilização clínica dos agonistas GLP-1 em milhões de doentes em todo o mundo, os dados de farmacovigilância e os estudos epidemiológicos proporcionam uma base sólida para avaliar o risco real em humanos:

Dados dos ensaios clínicos

Dados de farmacovigilância pós-comercialização

Monitorização da calcitonina

A calcitonina sérica é o marcador tumoral das células C da tiróide. Estudos de monitorização de rotina da calcitonina em doentes tratados com GLP-1 não demonstraram elevações clinicamente significativas deste marcador, reforçando a ausência de estimulação relevante das células C em humanos.

Contraindicações formais: MEN2 e carcinoma medular

Apesar dos dados tranquilizadores na população geral, as autoridades reguladoras mantêm contraindicações formais como medida de precaução:

Contraindicação absoluta: Todos os agonistas GLP-1 estão contraindicados em doentes com:

  • Antecedentes pessoais de carcinoma medular da tiróide
  • Antecedentes familiares de carcinoma medular da tiróide
  • Síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2)

O que é a MEN2?

A neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2) é uma síndrome genética rara, causada por mutações no gene RET, que predispõe ao desenvolvimento de carcinoma medular da tiróide (em quase 100% dos portadores), feocromocitoma e hiperparatiroidismo. A MEN2 afeta aproximadamente 1 em cada 30.000 pessoas.

Em Portugal, o rastreio genético de MEN2 é realizado nos centros hospitalares de referência de oncologia e endocrinologia, sendo recomendado para familiares de primeiro grau de doentes com carcinoma medular da tiróide confirmado.

Posição oficial da EMA e do INFARMED

A posição da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), refletida nos documentos de autorização de introdução no mercado e nos relatórios de avaliação periódica de segurança (PSUR), pode ser resumida nos seguintes pontos:

  1. Os achados em roedores são reconhecidos como um sinal de segurança que justifica monitorização contínua e contraindicação em grupos de risco
  2. Os dados disponíveis em humanos não demonstram um aumento do risco de carcinoma medular da tiróide na população geral tratada com GLP-1
  3. A contraindicação em doentes com MEN2 ou antecedentes de carcinoma medular é mantida como medida de precaução
  4. Não é recomendada monitorização de rotina da calcitonina sérica para a população geral de utilizadores de GLP-1
  5. O balanço benefício-risco permanece claramente favorável para as indicações aprovadas (diabetes tipo 2 e obesidade)

O INFARMED, como autoridade nacional do medicamento em Portugal, alinha-se integralmente com a posição da EMA nesta matéria. Os resumos das características do medicamento (RCM) disponíveis no sítio web do INFARMED incluem os avisos e contraindicações recomendados pela EMA.

Vigilância tiroideia durante o tratamento com GLP-1

Embora não seja recomendada vigilância tiroideia de rotina (ecografia ou calcitonina) para todos os utilizadores de GLP-1, determinadas situações clínicas podem justificar uma avaliação mais atenta:

Recomendação prática: Antes de iniciar um agonista GLP-1, o médico deve recolher os antecedentes pessoais e familiares de patologia tiroideia. Na ausência de fatores de risco, não são necessários exames adicionais. Se tiver dúvidas, discuta com o seu médico prescritor.

Outros tipos de cancro da tiróide e GLP-1

É importante distinguir entre os diferentes tipos de cancro da tiróide:

A preocupação com os GLP-1 é específica do carcinoma medular (células C) e não se aplica aos tipos mais comuns de cancro da tiróide.

Perguntas frequentes

Os GLP-1 causam cancro da tiróide?

Em roedores, os agonistas GLP-1 provocaram tumores das células C da tiróide. No entanto, os roedores têm uma suscetibilidade específica que não se verifica em humanos, devido à diferença na expressão de recetores GLP-1 nas células C. Com mais de 15 anos de dados em humanos, não foi demonstrado aumento significativo do risco de carcinoma medular da tiróide.

O que é a contraindicação MEN2?

A neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2) é uma síndrome genética rara que predispõe ao carcinoma medular da tiróide. Os GLP-1 estão formalmente contraindicados nestes doentes e em pessoas com antecedentes pessoais ou familiares de carcinoma medular, por precaução.

Devo fazer ecografia à tiróide antes de iniciar Ozempic?

Não é recomendada ecografia tiroideia de rotina para todos os doentes que iniciam GLP-1. O médico deve avaliar os antecedentes pessoais e familiares de patologia tiroideia. Doentes com nódulos preexistentes ou antecedentes familiares relevantes devem ser avaliados previamente.

Qual é a posição da EMA sobre GLP-1 e tiróide?

A EMA considera que os dados em humanos não demonstram aumento do risco para a população geral, mas mantém a contraindicação em doentes com MEN2 ou antecedentes de carcinoma medular como medida de precaução. O balanço benefício-risco permanece favorável.