Atualizado em abril de 2026

O Futuro dos Tratamentos
para a Obesidade

Survodutida, retatrutida, orforglipron em comprimido e o pipeline farmacêutico 2026-2028: os medicamentos que vão transformar o tratamento da obesidade.

Uma revolução em curso: da semaglutida à próxima geração

A aprovação do semaglutido (Wegovy) e da tirzepatida (Mounjaro) marcou um ponto de viragem no tratamento farmacológico da obesidade, demonstrando perdas de peso de 15-26% do peso corporal — resultados antes reservados à cirurgia bariátrica. No entanto, estes fármacos representam apenas o início de uma nova era. Dezenas de moléculas estão em desenvolvimento, com mecanismos de ação cada vez mais sofisticados, formas de administração mais cómodas e eficácias potencialmente superiores.

Este artigo apresenta os candidatos mais promissores no pipeline farmacêutico para 2026-2028, com foco nos que poderão estar disponíveis em Portugal nos próximos anos.

Survodutida (Boehringer Ingelheim): agonista duplo GLP-1/glucagão

A survodutida (BI 456906) é um agonista duplo dos recetores GLP-1 e do glucagão, desenvolvido pela Boehringer Ingelheim em parceria com a Zealand Pharma. Ao contrário da tirzepatida (que combina GIP e GLP-1), a survodutida combina GLP-1 com o recetor do glucagão, explorando o efeito termogénico e lipolítico deste último.

Resultados clínicos

Potencial para esteatose hepática: A survodutida está a ser estudada não só para a obesidade mas também para a MASH (esteatohepatite metabólica associada a disfunção), uma doença hepática frequentemente associada à obesidade que carece de tratamentos eficazes. Os resultados preliminares são promissores.

Retatrutida (Eli Lilly): o agonista triplo

A retatrutida (LY3437943) é o candidato mais ambicioso no pipeline da Eli Lilly. Trata-se do primeiro agonista triplo — atuando simultaneamente nos recetores GLP-1, GIP e glucagão — reunindo assim os mecanismos da tirzepatida e da survodutida numa única molécula.

Resultados clínicos

Molécula Recetores-alvo Perda de peso máxima (ensaios) Fase de desenvolvimento
Semaglutida (Wegovy) GLP-1 15-17% Aprovada (EMA)
Tirzepatida (Mounjaro) GLP-1 + GIP 20-26% Aprovada (EMA para diabetes)
Survodutida GLP-1 + Glucagão ~19% (fase 2) Fase 3
Retatrutida GLP-1 + GIP + Glucagão ~24% (fase 2) Fase 3
Orforglipron GLP-1 (oral) ~15% (fase 2) Fase 3
CagriSema GLP-1 + Amilina ~22% (fase 2) Fase 3

Orforglipron (Eli Lilly): o GLP-1 em comprimido

Um dos avanços mais aguardados é o desenvolvimento de agonistas GLP-1 orais. Atualmente, todos os GLP-1 eficazes para a obesidade são administrados por via injetável (subcutânea), o que constitui uma barreira para muitos doentes. O orforglipron (LY3502970) da Eli Lilly poderá mudar este paradigma.

O que torna o orforglipron especial?

Resultados clínicos

Impacto potencial em Portugal: Se aprovado, o orforglipron poderá democratizar o acesso ao tratamento com GLP-1 em Portugal. O formato oral elimina a barreira da injeção e o custo de produção mais baixo poderá facilitar eventuais negociações de comparticipação com o INFARMED.

CagriSema (Novo Nordisk): semaglutida + cagrilintida

A Novo Nordisk está a desenvolver o CagriSema, uma combinação fixa de semaglutida com cagrilintida (um análogo de longa ação da amilina). A amilina é uma hormona co-segregada com a insulina pelo pâncreas, que reduz o apetite e retarda o esvaziamento gástrico por um mecanismo diferente do GLP-1.

Resultados clínicos

Outros candidatos em desenvolvimento

Para além dos candidatos principais, diversas outras moléculas estão em fases variadas de desenvolvimento:

Quando chegarão a Portugal?

A disponibilidade em Portugal depende de dois processos sequenciais: a aprovação pela EMA (Agência Europeia de Medicamentos) e a autorização de introdução no mercado pelo INFARMED, incluindo a eventual negociação de comparticipação.

Molécula Aprovação EMA (estimativa) Disponível em Portugal (estimativa)
Orforglipron (comprimido) 2027 2027-2028
CagriSema 2026-2027 2027-2028
Semaglutida oral alta dose 2026-2027 2027-2028
Retatrutida 2028 2028-2029
Survodutida 2027-2028 2028-2029

Nota: As estimativas de disponibilidade são baseadas nos calendários de ensaios clínicos e nos tempos médios de aprovação pela EMA e pelo INFARMED. Podem sofrer alterações significativas consoante os resultados dos ensaios e os processos regulamentares. Nenhum destes candidatos está ainda aprovado para uso clínico em Portugal à data de publicação deste artigo.

O que significam estes avanços para os doentes portugueses?

A evolução do pipeline farmacêutico para a obesidade representa motivos de otimismo:

Perguntas frequentes

Quando estará disponível um comprimido GLP-1 para emagrecer em Portugal?

O orforglipron (Eli Lilly) é o candidato mais avançado, com resultados de fase 3 esperados em 2026. Se aprovado pela EMA, poderá estar disponível em Portugal entre 2027 e 2028. A semaglutida oral em dose alta (Novo Nordisk) poderá seguir um calendário semelhante.

O que é a retatrutida e qual a sua eficácia?

A retatrutida é um agonista triplo (GLP-1, GIP e glucagão) da Eli Lilly. Nos ensaios de fase 2, demonstrou perdas de peso até 24% em 48 semanas. Os ensaios de fase 3 estão em curso, com resultados esperados entre 2026 e 2027.

Os novos tratamentos serão mais baratos?

É provável que os comprimidos sejam mais baratos de produzir, e a competição entre fabricantes deverá pressionar os preços para baixo. No entanto, o preço final em Portugal dependerá das negociações com o INFARMED e de eventuais decisões de comparticipação pelo SNS.