A ligação entre obesidade e apneia do sono
A apneia obstrutiva do sono (AOS) é uma das comorbilidades mais frequentes da obesidade, afetando uma proporção significativa dos doentes com excesso de peso em Portugal. Estima-se que entre 60% e 70% das pessoas com AOS moderada a grave apresentem simultaneamente obesidade, estabelecendo uma relação bidirecional que agrava ambas as condições.
O mecanismo é relativamente direto: o excesso de tecido adiposo, particularmente na região cervical e faríngea, provoca o estreitamento das vias aéreas superiores durante o sono. Quando os músculos relaxam durante as fases mais profundas do sono, estas vias colapsam parcial ou totalmente, provocando episódios repetidos de apneia (paragem respiratória) e hipopneia (redução do fluxo de ar).
Índice AHI: O índice de apneia-hipopneia (AHI) é a principal medida de gravidade da apneia do sono. Mede o número de episódios de apneia e hipopneia por hora de sono. AHI 5-15 = ligeira; 15-30 = moderada; acima de 30 = grave.
O estudo SURMOUNT-OSA: resultados principais
O estudo SURMOUNT-OSA, publicado no New England Journal of Medicine, constitui o ensaio clínico mais robusto até à data sobre o efeito de um agonista GLP-1 na apneia obstrutiva do sono. Realizado em centros de investigação a nível internacional, avaliou a eficácia e segurança da tirzepatida (comercializada como Mounjaro) em adultos com obesidade e AOS moderada a grave.
Desenho do estudo
- Tipo: Ensaio clínico de fase III, aleatorizado, duplamente cego, controlado por placebo
- Participantes: Adultos com IMC ≥ 30 kg/m² e AOS moderada a grave (AHI ≥ 15 eventos/hora)
- Duração: 52 semanas de tratamento
- Grupos: Dois estudos paralelos — SURMOUNT-OSA 1 (doentes sem CPAP) e SURMOUNT-OSA 2 (doentes com CPAP)
- Endpoint primário: Variação do AHI desde o início até à semana 52
Resultados-chave
| Parâmetro | Tirzepatida | Placebo |
|---|---|---|
| Redução do AHI (SURMOUNT-OSA 1) | Aprox. -25 a -30 eventos/hora | Aprox. -5 eventos/hora |
| Redução percentual do AHI | Aprox. 50-60% | Aprox. 5-10% |
| Perda de peso média | Aprox. 18-20% do peso corporal | Aprox. 1-2% |
| Resolução da AOS (AHI < 5) | Aprox. 40-45% dos doentes | Aprox. 5% |
| Melhoria do score de sonolência (ESS) | Significativamente superior | Melhoria mínima |
Os resultados foram considerados historicamente significativos pela comunidade médica, representando a primeira evidência robusta de que uma intervenção farmacológica pode produzir reduções no AHI comparáveis à terapia com CPAP em muitos doentes.
Mecanismos: como os GLP-1 melhoram a apneia
Os agonistas GLP-1 não atuam diretamente sobre as vias aéreas superiores. Os seus benefícios na apneia do sono resultam de múltiplos mecanismos interrelacionados:
Redução do tecido adiposo cervical
A perda de peso substancial proporcionada pelos GLP-1 reduz a deposição de gordura na região do pescoço e faringe. Estudos de imagiologia demonstraram que uma redução de 10-15% do peso corporal pode diminuir significativamente o volume dos tecidos moles perifaríngeos, aliviando a obstrução mecânica das vias aéreas.
Redução da gordura visceral e torácica
A gordura visceral abdominal e torácica comprime o diafragma e reduz a capacidade residual funcional dos pulmões. A perda desta gordura melhora a mecânica ventilatória e a oxigenação noturna. Os agonistas GLP-1 demonstraram uma preferência pela redução da gordura visceral em comparação com a gordura subcutânea.
Efeitos anti-inflamatórios
A apneia do sono está associada a um estado de inflamação crónica sistémica. Os agonistas GLP-1 possuem propriedades anti-inflamatórias demonstradas, que podem contribuir para a melhoria da função respiratória e a redução da hipersensibilidade das vias aéreas superiores.
Melhoria da sensibilidade à insulina
A resistência à insulina, frequente na obesidade e na AOS, contribui para a acumulação de gordura ectópica nos tecidos faríngeos. Ao melhorar a sensibilidade à insulina, os GLP-1 podem ajudar a reverter este processo. Saiba mais sobre a relação entre GLP-1 e metabolismo no nosso artigo sobre GLP-1 e diabetes tipo 2.
Semaglutido e apneia do sono: dados adicionais
Embora o estudo SURMOUNT-OSA tenha sido conduzido com tirzepatida, existem também dados relevantes sobre o efeito do semaglutido (Ozempic/Wegovy) na apneia do sono. Os programas de ensaios STEP e SUSTAIN incluíram análises post-hoc que demonstraram melhorias significativas nos parâmetros de sono e fadiga diurna em doentes tratados com semaglutido.
Uma análise dos dados do programa STEP revelou que doentes com AOS que perderam mais de 10% do peso corporal com semaglutido 2,4 mg semanal apresentaram melhorias clinicamente significativas na qualidade do sono, na sonolência diurna e nos níveis de oxigenação noturna medidos por oximetria de pulso.
Impacto na qualidade de vida
Para além da redução dos parâmetros polissonográficos, o tratamento da apneia do sono com agonistas GLP-1 traduz-se em benefícios tangíveis na vida quotidiana dos doentes:
- Redução da sonolência diurna: Menor risco de adormecer durante atividades como a condução, o trabalho ou a leitura
- Melhoria da concentração e memória: A normalização da oxigenação cerebral noturna melhora as funções cognitivas
- Redução do risco cardiovascular: A AOS não tratada é um fator de risco independente para hipertensão, arritmias e AVC. Saiba mais no nosso artigo sobre GLP-1 e saúde cardiovascular
- Melhoria do humor: A normalização do sono reduz a irritabilidade, a ansiedade e os sintomas depressivos associados à privação crónica de sono. Consulte o nosso artigo sobre GLP-1 e saúde mental
- Possível redução ou suspensão do CPAP: Alguns doentes podem, sob supervisão médica, reduzir a pressão do CPAP ou, em casos de resolução completa da AOS, descontinuar o dispositivo
Atenção: A decisão de alterar ou suspender a terapia com CPAP deve ser sempre tomada pelo médico pneumologista, após reavaliação clínica e realização de um novo estudo polissonográfico que confirme a resolução ou melhoria significativa da apneia.
Contexto em Portugal: acesso e limitações
Em Portugal, a apneia obstrutiva do sono é diagnosticada e seguida primariamente nos serviços de Pneumologia e nos centros de medicina do sono dos hospitais do SNS. O acesso ao diagnóstico por polissonografia pode implicar tempos de espera consideráveis em muitas regiões do país.
Comparticipação e acesso aos GLP-1 para doentes com AOS
Atualmente, o SNS não comparticipa os agonistas GLP-1 especificamente para o tratamento da apneia do sono. No entanto, muitos doentes com AOS apresentam simultaneamente diabetes tipo 2 ou obesidade grave, condições que podem fundamentar a prescrição e, no caso da diabetes, a comparticipação pelo SNS.
Para informações detalhadas sobre o custo dos GLP-1 em Portugal, consulte o nosso guia de preços atualizado.
Perguntas frequentes
Os medicamentos GLP-1 podem tratar a apneia do sono?
Os agonistas GLP-1 não são tratamentos aprovados especificamente para a apneia do sono. Contudo, os estudos clínicos demonstram que a perda de peso significativa que proporcionam pode reduzir substancialmente a gravidade da AOS, com reduções de até 50-60% no índice AHI em doentes com obesidade.
O que mostrou o estudo SURMOUNT-OSA?
O SURMOUNT-OSA demonstrou que a tirzepatida reduziu o índice AHI em aproximadamente 50-60% em doentes com obesidade e AOS moderada a grave, ao longo de 52 semanas. Cerca de 40-45% dos doentes tratados atingiram resolução completa da apneia (AHI inferior a 5).
Posso deixar de usar CPAP se tomar um GLP-1?
Nunca deve interromper o uso de CPAP por iniciativa própria. Embora os GLP-1 possam reduzir a gravidade da AOS, qualquer alteração na terapia com CPAP deve ser decidida pelo seu médico pneumologista, após reavaliação com novo estudo polissonográfico.
Em Portugal, o SNS comparticipa GLP-1 para apneia do sono?
Não diretamente. Em abril de 2026, a comparticipação dos GLP-1 pelo SNS aplica-se à diabetes tipo 2. Doentes com diabetes e AOS concomitante podem beneficiar da comparticipação pela indicação diabetológica.
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